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Eu, tradutora

Todo mundo que persegue suas paixões e não nasceu em família abastada precisa de uma ocupação tradicional pra sustentar seu estilo de vida subversivo. No meu caso, me orgulho de ter vestido (e ainda vestir, muitas vezes) o chapéu de tradutora. Porque traduzir é construir pontes entre dois mundos, é emprestar a voz ao outro, é usar a linguagem como uma chave para abrir portais. E sinto que essas coisas estão em tudo o que eu faço.

Durante boa parte da minha vida adulta, minha fonte de renda principal foi esse mágico ofício de ler em uma língua e escrever em outra, em inúmeras formas. 

Embora eu ainda esteja envolvida com vários projetos bilíngues, hoje traduzo menos (até mesmo em vista da tendinite e da capsulite adesiva), neste espaço reside minha bibliografia publicada e eventuais comentários sobre algum volume. 

 
Tradutor, traidor.
— Provérbio italiano
 
O original é infiel à tradução.
— Jorge Luis Borges
 Aquarela (Helen Birch)  Tive o prazer de traduzir vários livros de arte para essa coleção linda da GG Editorial. Este finíssimo volume da Helen Birch,  Aquarela: Inspiração e técnicas de artistas contemporâneos  foi o mais recente deles. Como tinha acabado de fazer outro livro de aquarela, meus glossários estavam afiadíssimos. Leitura recomendada pra quem quer se inspirar e expandir as fronteiras com o pincel.

Aquarela (Helen Birch)

Tive o prazer de traduzir vários livros de arte para essa coleção linda da GG Editorial. Este finíssimo volume da Helen Birch, Aquarela: Inspiração e técnicas de artistas contemporâneos foi o mais recente deles. Como tinha acabado de fazer outro livro de aquarela, meus glossários estavam afiadíssimos. Leitura recomendada pra quem quer se inspirar e expandir as fronteiras com o pincel.

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Um buraco em forma de mãe (ou: Feliz dia das mães pra você que tem uma relação péssima com a própria mãe)

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Um buraco em forma de mãe (ou: Feliz dia das mães pra você que tem uma relação péssima com a própria mãe)

Em meio a imagens de Nossa Senhora e promoções de loja, o dia das mães pode ser um momento desafiador pra quem não tem lá a melhor das relações com a sua progenitora. A julgar pelo clima cultural, seria de se esperar que todas as mães fossem maravilhosas e magicamente dotadas de superpoderes afetivos. Isso faz com que pessoas como eu e você, filhas de mãe negativa, acabemos nos sentindo aprisionadas em uma realidade paralela onde todas as mães do mundo são maravilhosas menos a nossa. 

Por isso, nesta data totalmente comercial que celebra a mulher que deveria ter te amado e te protegido mas acabou te deixando com medo de confiar em qualquer pessoa, preparei especialmente pra gente que é filha de Medeia a singela coleção de cartões que ilustram este texto. Partiu se libertar dessa prisão que é esperar amor de alguém que não tem amor pra dar!

Maternidade e amorosidade nem sempre andam juntas

Não importa qual é o seu trauma: se você foi espancada por uma mãe bêbada ou se teve sua autoestima sistematicamente erodida pelas críticas destrutivas da mamãe. Neste dia das mães, eu quero te deixar de presente uma única lição:

O maior retrato da relação de uma mulher consigo mesma é a maneira como ela se relaciona com a própria filha.

Ou seja, uma filha é um espelho para sua mãe. Quando eu, já adulta, consegui entender essa lição, tudo mudou tudo na minha relação com minha mãe negativa (ela mesma vítima de abuso e negligência na infância e sobrevivente de uma vida marcada pelo abuso de drogas e pela doença mental não tratada). Ficou claro que nada que eu fizesse seria capaz de mudar a forma como ela mãe me tratava e isso me deixou livre pra tomar decisões como adulta e nutrir a minha própria mãe interior (que morre de orgulho quando eu faço alguma coisa legal).

Um outro mundo é possível

Pra me separar da mãe negativa, não bastou eu entender o processo, precisei ativamente me controlar pra sair do papel de filha que não recebe o suficiente, que espera o amor da mãezinha. Isso passou por reconhecer que minha mãe não era capaz de me enxergar, não porque eu fosse insignificante, mas porque não tinha espaço na relação pra alguém além dela. E a partir de "não ter mãe", se criou um vazio. Foi nesse vazio que eu construí minha mãe de verdade. 

A genial Bethany Webster, uma mentora e coach que ajuda mulheres a curarem a "ferida da mãe", descreve essa jornada de cura em sete etapas:

  1. Primeiro, é preciso reconhecer como a nossa mãe é a base para tudo o que achamos de nós mesmas. Ou seja, se a minha mãe me dizia que eu era preguiçosa, eu vou crescer acreditando que sou preguiçosa, por exemplo. 
  2. Depois, é preciso reconhecer na cultura (o mundo "lá fora") as fontes dessa ferida. Reconhecer que a minha mãe também caiu nas armadilhas do "senso comum" e como ela também é produto de um ciclo destrutivo que corre gerações. A partir disso, eu me comprometo a romper com o ciclo
  3. Neste momento, o processo de luto começa. Eu reconheço tudo o que eu não tive, todas as minhas carências, e consolo a criança machucada dentro de mim. Eu reconheço as formas em que eu compensei essas carências para me proteger e enfrento esses sentimentos.
  4. Agora que eu sei o que me faltou, é hora de tirar a criança machucada do comando e assumir a perspectiva adulta. Nessa etapa, é preciso matar a ilusão e reconhecer que a mãezinha boazinha não existe, que ela nunca vai existir: que minha mãe nunca vai me dar o que ela não me deu.
  5. A dor é real. A dor de não ter mãe pode parecer insuportável, mas ela fica pior quando a gente não se permite sentí-la. Este é o momento de luto, de sentir totalmente a dor pela morte da mãe falsa.
  6. Depois de "enterrar" simbolicamente a mãe negativa, você pode desconectar sua mãe interior dela. Todo o apego e amor que você sentia pela mãe que não tinha amor pra dar pode ser transferido para a sua mãe interior amorosa: uma parte de você mesma que faz o papel de tudo o que você não recebeu de sua mãe negativa. Essa mãe é a sua versão adulta, ela é a mulher que você realmente pode ser. 
  7. Depois dessa cura, você pode reimaginar toda a sua vida, livre dos bloqueios que eram criados pela sombra da mãe negativa. O que é possível para você agora que você tem uma mãe positiva?

Trocando em miúdos, o único jeito de superar o horror de uma mãe negativa é virar sua própria mãe, uma mãe totalmente diferente da mãe negativa, uma mãe amorosa e responsável, que nunca vai te abandonar. Não se trata de botar a culpa na mãe ruim, mas sim de assumir o controle pela própria narrativa. É um processo que exige tempo e energia, porque a nossa criança carente está sempre pronta pra abrir o berreiro. Mas o que eu quero dizer é que é possível. E vale a pena descobrir que aquilo que você esperou a vida inteira para receber de outra pessoa estava dentro de você. 

Feliz dia das mães pra você, que é sua própria mãe. Você é a melhor mãe do mundo. Sua linda. <3

Abaixo, a coleção completa de cartões, inspirada por esta postagem aqui

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A terceira lua: trabalhando entre o céu e a terra

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A terceira lua: trabalhando entre o céu e a terra

Em praticamente todas as culturas antigas, a lua é vista como uma entidade feminina. Além de reger as marés, ela também influencia as águas dentro de nós (e com elas, as poderosas flutuações hormonais que regulam muitos de nossos poderes ao longo do ciclo). 

A lua como símbolo também está relacionada ao que não conseguimos prever, à loucura, àquilo que está oculto. A própria essência do feminino (ou receptivo) sempre esteve associada à noite, aos segredos e às leis ocultas da natureza, o que inspirou temor e respeito ao longo da história.  

A melhor maneira de ilustrar essa relação entre as mulheres e a lua é a simetria quase perfeita entre o ciclo menstrual e o ciclo lunar. Em 28 dias, um ciclo completo de expansão e retração desenha no céu uma história de eterno nascimento, morte e renascimento. Antes mesmo da invenção do tempo, cada mulher já trazia dentro de si um calendário. 

 (foto: Jake Hills)

(foto: Jake Hills)

Máquinas de executar tarefas 

Assim como a natureza, a mulher tem ritmos que historicamente vêm sendo atropelados em nome dos caprichos e da ganância dos poderosos. Vivemos uma era dominada por corporações multinacionais maiores que países, na qual o respeito ao ciclo natural de expansão e retração deu lugar a um extrativismo violento e inescrupuloso. 

Em uma cultura de produtividade mecânica, toda mudança é perigosa. Dizer que alguém é "de lua" é uma forma de desqualificar essa pessoa. Da mesma forma, o período menstrual é culturalmente associado a instabilidade emocional ("ih, deve estar naqueles dias") e a reações supostamente exageradas (um dia eu vou escrever um texto sobre TPM pra dizer umas verdades, mas hoje não é esse dia). 

A partir da revolução industrial, quando pessoas e máquinas começaram a ser comparadas, essa lua interior vêm se tornando cada vez mais secreta, até mesmo para nós mesmas.  Pudera: há séculos reivindicamos direitos iguais e no entanto ainda ganhamos menos do que os homens. Não é de espantar que não conversemos abertamente sobre a importância de honrar as necessidades do nosso corpo em cada etapa do ciclo, se ainda vivemos em um clima cultural que pode usar esses conhecimentos contra nós.

 Aquela sensação de estar morrendo lentamente... (foto: Pinterest)

Aquela sensação de estar morrendo lentamente... (foto: Pinterest)

Sangue, suor e lágrimas

Como boa parte das mulheres da minha geração, fui educada para ser independente. Sempre foi muito importante pra mim fazer algo em que eu acreditava então destaquei desde cedo nos ambientes de trabalho. Minha paixão era cumprir minha missão com brilhantismo e atender às necessidades dos clientes. Eu era aquela que ficava até mais tarde, que trabalhava nos fins de semana, nas madrugadas. Eu era capaz de fazer o que precisasse para garantir o resultado. Boa parte das mulheres sabe que a recompensa por esses “sacrifícios” que fazemos de bom grado é a expectativa de que sempre estaremos dispostas a fazê-los.

Então, quando eu tinha cólicas ou sintomas naturais do período menstrual, rejeitava essas experiência com fúria. Eu intuía as regras do mundo à minha volta e achava que melhor seria não precisar passar por aquele “martírio”. O corpo que parecia estar contra mim, me forçando a parar quando o que eu queria era continuar, não era o meu corpo. O meu corpo, se fosse meu mesmo, deveria se curvar à vontade da minha mente, ora essa. Embora eu não viva mais assim há algum tempo, ainda lembro bem dessa época e da clara sensação de que meu corpo era meu inimigo. 

 (foto:  Rupi Kaur )

(foto: Rupi Kaur)

Dá pra sangrar sem dor

Meu primeiro grande insight sobre o ciclo menstrual veio quando comecei a prestar atenção. Ainda firmemente revoltada contra a menstruação e contra o próprio fato de ter nascido mulher, eu me dei conta que a dor não era algo natural. 

A revelação foi a seguinte: embora o aumento da sensibilidade seja a experiência padrão da menstruação, a dor aguda dependia de outros fatoras. Observei que quando o ciclo anterior tinha sido tranquilo e eu tinha me mantido presente, não sentia dor alguma. Por outro lado, nos meses em que eu me “matava trabalhando”, quando eu não tinha escutado minhas necessidades, quando tinha traído o meu bem-estar sistematicamente, aí o período menstrual era marcado por dor e sofrimento. 

Nesses ciclos de atropelamento das necessidades, a menstruação me  incapacitava: eu sentia tanta dor que ficava nauseada. Não conseguia comer direito. Quando ligava pra cancelar algum compromisso, aproveitava e dizia que estava mal do estômago (por vergonha de "admitir a fraqueza" e mencionar o período menstrual). Mas se a menstruação não era naturalmente dolorosa, ficava claro que tinha algo muito errado, realmente. Sentir tanta dor não podia mais ser encarado como algo normal. Algo tinha que mudar.

 (Arte: Naomi Wilkinson)

(Arte: Naomi Wilkinson)

A sincronicidade amplifica tudo

Anos se passaram entre eu começar a prestar atenção no meu ciclo e finalmente experimentar pela primeira vez a sincronia total com a lua. Nesse padrão menstrual, que vim a chamar de “ciclo da deusa”, a mulher menstrua na lua nova e ovula na lua cheia. Todos os marcadores de fertilidade e receptividade ficam amplificados. É sublime em termos de relação com a natureza e magnetismo pessoal. Incidentalmente, sempre que eu experimentei esse padrão menstrual foi em momentos de conexão frequente com a natureza (pé na terra, banho de rio, essas coisas). 

Fui tomada por uma euforia maravilhosa. Eu olhava para a lua no céu e ela me dizia algo sobre mim. Como se tudo na terra e no céu me refletisse. Mas não era um delírio de megalomania e sim uma sensação de fusão, de total comunhão com a natureza. 

Mas quando eu entrei em uma fase de trabalho mais intenso, que restringiu meu tempo de contato com a natureza e demandou mais assertividade, meu ciclo naturalmente mudou. Depois de ter experimentado a amplificação de todos os processos, eu olhava para o céu e via outra lua, uma lua que não falava de mim. Senti como se tivesse perdido algo que eu havia lutado anos para conquistar. Sem a lua pra amplificar todos os meus processos, eu era apenas uma mulher comum, sem super-poderes. (Sim, superpoderes. Até ovular na lua cheia, eu não sabia o que era magnetismo pessoal.) 

 (foto: Pinterest)

(foto: Pinterest)

O ciclo faz o ritmo, o ritmo faz o ciclo

Há indícios de que, antes da invenção da luz elétrica (que nos permite seguir nas tarefas diurnas depois que o sol já caiu), todas as mulheres do mundo menstruavam na lua nova e ovulavam na lua cheia. Esse padrão menstrual, além de demonstrar um nível alto de harmonia com os ciclos naturais, está associado à fertilidade. Ele é o "ciclo ideal" para acasalar e fazer bebês mas também o melhor ciclo para criar a partir da própria verdade, em harmonia com o que está à minha volta. 

Acontece que antes de inventarem a luz elétrica, as mulheres não tinham as mesmas demandas individuais que temos hoje. Há ambientes tão carregados de masculinidade tóxica que seria prejudicial para meu trabalho (e bem estar) eu exercer a receptividade e a fluidez no nível em que o "ciclo da deusa" permite. Quando qualquer processo é amplificado, é importante poder selecionar os processos que estão na pauta. E isso ainda é um privilégio. 

Ironicamente, embora a sincronia plena seja uma experiência linda, o momento em que eu realmente entendi que meu corpo nunca esteve contra mim foi no padrão menstrual inverso (sangramento na lua cheia e ovulação na lua nova), que vim a chamar de "ciclo da guerreira". Foi quando eu percebi que o meu ciclo tinha mudado porque era exatamente aquilo que o ambiente ao meu redor estava exigindo. Foi ali que eu me dei conta que não existia um certo e errado. Foi ali que eu vislumbrei pela primeira vez, a terceira lua. 

 (arte: Los Tomatos)

(arte: Los Tomatos)

Da dança de duas nasce a terceira lua

Um jeito de visualizar a relação entre a lua externa (no céu) e a lua interna (o padrão menstrual de cada mulher) é visualizar dois discos sobrepostos que giram no mesmo sentido. O maior deles se move sempre em um ritmo constante e o menor, por ser mais leve, é mais afetado pelo ambiente, sua velocidade pode variar. O disco grande é a lua no céu, que afeta não só a mim mas a tudo o que há na Terra. O disco menor é a minha lua pessoal, que é um dado de energia disponível ao longo do ciclo. 

Na relação entre esses dois ritmos surge uma terceira lua, que descreve a interface, o contato, entre o momento energético que me afeta de fora pra dentro e o momento energético que me afeta de dentro pra fora. A terceira lua está oculta. Para ouvir suas mensagens, é preciso fazer silêncio e confiar na sabedoria dos ciclos. Nem sempre uma mensagem se revela em um único ciclo. Nesse sentido, a terceira lua se assemelha aos ciclos mais longos, como as estações do ano. Olhe para os três últimos ciclos e veja que histórias eles contam. 

Ao contrário do que pode parecer para alguém que olha dentro do paradigma patriarcal, a lua é um indicador. Observar e monitorar essas três luas (a interna, a externa e a relação entre as duas) é uma decisão estratégica para o meu negócio. Eu trabalho melhor se levo em consideração o resultado que quero produzir. Se eu entendo os ciclos, não preciso fingir que estou ocupada nos momentos de introspecção. Quando eu intencionalmente distribuo minhas atividades no calendário de acordo com o meu padrão menstrual,  consigo prever melhor minhas próprias necessidades e reservar espaço e tempo para demandas sutis, ao invés de assumir mais coisas do que consigo dar conta. 

Navegação sutil

A terceira lua só se revela quando nos recusamos a escolher entre as demandas externas e as demandas internas. Ela é uma ferramenta de precisão, reservada àquelas que estão prontas para navegar a rigidez da realidade sem abrir mão da própria maciez. 

O ciclo menstrual é um sistema de mensagens viscerais altamente inteligente, que responde às especificidades do meio. Nosso ciclo não tem como mandar um email enumerando as coisas das quais estamos precisando, por isso cabe a cada mulher aprender essa linguagem visceral. Se você estiver precisando de descanso, o corpo vai  apresentar sinais dessa necessidade. Em um primeiro momento, serão  sinais são sutis, e então se tornarão menos sutis. Se dor devastadora for o único jeito de você parar e ouvir, é função do teu ciclo assumir a função de te "garantir" o acesso a esse descanso de que tu precisa. 

A terceira lua traz mensagens sobre o momento que estamos vivendo. Ela mostra do que estamos precisando (e às vezes ainda não percebemos) e o que podemos oferecer. Por exemplo, se você estiver navegando um momento hostil e precisar de uma casca um pouco mais grossa pra te proteger, a terceira lua trata de desacelerar ou acelerar o ritmo para garantir teu acesso a essa densidade maior. 

 (foto: Pinterest)

(foto: Pinterest)

Luas que se encontram

Sabemos que, quando estão em grupos, as mulheres tendem a menstruar mais ou menos ao mesmo tempo. Essa é mais uma evidência da relação entre o nosso ciclo menstrual e o ambiente ao nosso redor. A tendência é que a mulher que tem a conexão mais forte com a lua sirva de canal para a conexão das outras. Essa mulher que magneticamente estabelece o ritmo do grupo não exerce domínio sobre as outras, ela simplesmente serve de ponte para as mulheres menos conectadas aos ritmos da natureza (o ciclo da lua). 

O processo de transformação que a terceira lua permite não é consciente, ele acontece a partir de um outro tipo de entendimento, em negociações sutis que ocupam espaços que não vemos mas que influenciam nossa experiência. É possível acolher ou rejeitar uma conexão mas não é possível fazer uma escolha racional (quero menstruar no dia 7 pra não interferir na data dessa maratona). O único caminho é confiar no ciclo. 

Eu gosto de pensar sobre a posição dessa mulher através da qual as outras fortalecem sua conexão. Em alguns grupos eu já exerci esse papel, em muitos outros já fui uma das que se beneficiou dela. Não dá pra negar que fazer essa conexão é uma posição de poder. Mas não é poder SOBRE as outras, e sim o poder de canalizar, inspirar, servir de ponte. Penso que essa é uma característica essencial do poder feminino: o aspecto feminino do poder (ou yin, se preferirem) nunca é coercitivo. Ele é receptivo e preenche os espaços que não enxergamos. Esse tipo de poder muda a forma como vivemos sem pedir licença, sempre pra melhor (mesmo quando relutarmos em admitir) e a única coisa que ele exige em troca é a que nos mantenhamos abertas para a conexão. 

 (foto:  Mandala Lunar )

Ferramentas úteis

Se você não entendeu muito bem mas está interessada, quero terminar dando algumas dicas práticas. Observar a troca entre as energias externas e internas é um processo de autoconhecimento que vale muito a pena, mas que acontece ao longo do tempo. E o jeito mais eficiente de aprender coisas ao longo do tempo é monitorando elas. Se você ainda não começou a prestar atenção nos seus ciclos, eu te convido para começar monitorando apenas a data da sua menstruação. Pra isso, você pode escolher um aplicativo para celular, uma agenda ou um método que você mesmo sinta que é agradável. 

Se você já monitora sua menstruação, te convido para começar a prestar atenção nas fases da lua e começar a planejar eventos importantes na sua vida levando em consideração a energia mais favorável para eles. Eu uso esse método para todas as datas importantes sobre as quais tenho controle. À medida que você aprende a se comunicar com essa energia lunar que afeta todas as coisas vivas no planeta, seus projetos vão fluir de maneira mais orgânica. Você vai naturalmente percebendo porque certas coisas foram mais difíceis em um momento e depois fluíram melhor em outro. 

Se você já faz as duas coisas, te convido para começar a olhar para seus últimos três ciclos e começar a identificar nas mensagens da terceira lua  e história que essa dança entre as luas está contando. Que tipo de vida você anda levando? Como o contato entre as energias lunares de fora e de dentro deram suporte ao teu crescimento? 

Pra te ajudar nesse processo, deixo aqui uma lista de ferramentas que eu uso e gosto (ninguém me paga nada pra recomendar):

Pra monitorar as fases da lua:

  • Olhar para o céu à noite (o app mais antigo da categoria) 
  • Phases of the moon (Android / iOS): aplicativo bem educativo, simples, elegante e grátis.

Para monitorar o ciclo menstrual:

  • Clue - Calendário Menstrual (Android / iOS): Este app simples e bonito tem a grande vantagem de ser em português. É grátis. 

Para monitorar a terceira lua:

  • The Flow (Android / iOS): aplicativo da autora Miranda Gray com dicas para aproveitar melhor os super-poderes de cada fase. Mostra as fases da lua também. Bonito, cheio de conteúdo e grátis. 
  • Mandala lunar: ideal pra quem não morre de amores pelas ferramentas tecnológicas, a Mandala Lunar é um recipiente lindo que reinventa a agenda em um formato sensível que honra todos os ciclos da mulher e da natureza. 

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Oração da feminista

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Oração da feminista

O planeta: Terra. O ano: 2017. Qualquer ativismo que não se espiritualizar será uma passagem só de ida para a terra da depressão eterna. Qualquer espiritualidade que não gerar ações diretas no mundo será pura ilusão do ego. Pronto, falei. Agora reza comigo. 

 Ilustrações de eplet. Para ver mais ilustrações e comprar, clique  aqui .&nbsp;

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ó consciência eterna
ó luz além da cor
eis-me diante de ti: corpo de mulher
mente de mulher e alma de mulher
pronta para ser vista em minha totalidade

e embora eu sozinha
jamais possa te ver plenamente
usa meus olhos para refletir teu brilho
para que eu enxergue teu rosto
refletido em cada irmã

e à medida que as irmãs refletem
umas para as outras a tua verdade
não deixa que eu me contente
até que mentira alguma produza som
até que a paz seja encontrada na verdade pura

desperta no meu coração
uma memória do teu útero
para que em tempos de dualidade partida
eu possa repousar na unidade

me ensina tua canção
enquanto eu danço a transformação
pisando forte, juntas aos bilhões
até o centro da terra
corpos iluminando toda escuridão
desde as profundezas do coração desperto 

me empresta tua ferocidade, teu poder
para que eu possa lutar por justiça
com a precisão dos tigres
com a determinação fluida
da água que rola morro abaixo

e quando não tiver mais luta em mim
abre meus olhos para que eu não fique cega
não me deixa esquecer jamais
que me fizeste forte para amar sempre
mesmo em tempos de guerra
sobretudo em tempos de guerra

me dá coragem para usar minha voz
quando o silêncio for a saída mais fácil
e a força do protesto silencioso
quando não for seguro usar palavra

ó sabedora dos mistérios
ó guardiã das chaves
eu faço esta oração para te encontrar dentro
escuta em minha voz não uma mas muitas
reunidas para criar
uma mulher gigante
guerreira invencível de amor

em teu nome eu rezo a partir deste momento
aqui e agora
até que dentro e fora
a verdade cure todas as feridas

assim já é

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Alquimia do detox: desmistificando o suco verde

 O suco verde é a minha poção. Dependendo de como estou me sentindo, vou combinando verduras, frutas, temperos e ervas pra criar a mistura perfeita

O suco verde é a minha poção. Dependendo de como estou me sentindo, vou combinando verduras, frutas, temperos e ervas pra criar a mistura perfeita

Todo mundo tem seus rituais e suas poções mágicas. Tem gente que não funciona sem café. Eu não funciono sem gengibre. E o meu jeito preferido de consumir gengibre é em um copão de suco verde.  Eu amo suco verde. É uma das bases da minha rotina de autocuidado: uma bebida nutritiva pra desbloquear meus superpoderes logo de manhã. Hoje em dia, eu sinto que depois de tomar um copão de suco verde estou pronta pra qualquer coisa. Mas levou muito tempo entre eu descobrir que suco verde existia e conseguir colocar ele na minha vida de maneira consistente.

Então, pensando em você que tem vontade de conhecer melhor essa delícia que é o suco verde mas ainda se sente um pouco intimidada, fiz este vídeo. Ele dá as duas dicas que eu gostaria que alguém tivesse me dado há alguns anos, quando eu ainda estava descobrindo o suco verde. O objetivo deste vídeo é descomplicar os dois principais fatores que desestimulam as pessoas a aceitar o suco verde na sua vida: a ideia de que é ruim (não precisa ser) e a dificuldade de ter verduras frescas em casa. Clique aí embaixo para assistir!

E pra inspirar você a experimentar, deixo aí embaixo a receita do meu verdinho de cada dia:

Verdinho básico

Ingredientes

600ml de água filtrada ou mineral
1/2 limão (semi-descascado)
2-3 cm de gengibre
1 colher de chá de pimenta caiena
Mel à gosto (opcional)
3 cubinhos congelados de suco de couve (ou 1-2 folhas de couve fresca e gelo a gosto)

Modo de preparo

Bater todos os ingredientes no liquidificador ou mixer, coar e beber na hora (em até 20 min). Se você tem um juicer, não precisa coar.

Agora é só beber seu copão de suco verde. Você vai sentir cada célula do seu corpinho te agradecendo. 

E aí? Gostou? Detestou? Conta como foi sua experiência aí nos comentários. 

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Consciência visceral (ou como parei de tapar o sol com a peneira e ficou tudo bem)

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Consciência visceral (ou como parei de tapar o sol com a peneira e ficou tudo bem)

Consciência visceral é a ideia de que a experiência através do corpo, em sua forma não narrativa, pela sensação pura, é uma das chaves mais poderosas pra abrir os baús onde a gente guarda aqueles bloqueios assustadores, os "chefões da fase" que a gente precisa derrotar pra conseguir avançar na nossa jornada. Sabe aquela coisa de pensar demais em um problema e acabar criando outro? Dentro da mente, é fácil distorcer a realidade e criar monstros imaginários. A barriga, por outro lado, é uma ferramenta de precisão sofisticada. Algumas pessoas chamam isso de sexto sentido. Eu gosto de chamar de consciência visceral*.

Só um minutinho, deixa eu perguntar pra minha barriga

Eu comecei a descobrir o caminho visceral mais conscientemente há uns dez anos, quando o bambolê entrou na minha vida. Quando comecei a dar aulas, eu não tinha interesse ou preparo para ensinar truques de circo ou dar aula de fitness, então minha abordagem era focada em dança e meditação pelo movimento. No começo de cada aula, fazíamos uma investigação visceral. A gente levava as mãos e a atenção para a barriga e se perguntava, silenciosamente: Como estou? O que estou sentindo? 

No começo isso foi bem estranho para as alunas (e até pra mim, um pouco), mas a ideia era repensar o mecanismo que a gente usa pra responder a pergunta "como você está?". A maioria das pessoas acha que as coisas que acontecem determinam como a gente se sente, mas a verdade é que as coisas ruins que aconteceram são uma memória. Elas não estão acontecendo agora. Na minha experiência, o jeito como eu me sinto é muito mais determinante pro meu bem estar do que o que acontece de fora pra dentro. Outra crença comum e perigosa é a de que estar bem é não sentir coisas ruins. O raciocínio que leva a essa falácia é razoavelmente simples: Ora, se você sente algo que não é bom, então você “não está bem”. E se você não está bem deve haver algo errado com você que precisa ser consertado pra você poder ficar bem de novo. 

Com o passar do tempo, se a gente não dá ouvidos a essas informações que as vísceras oferecem, vamos nos desconectando delas e entrando em um modo automático. A gente deixa a boca (a mente) responder à pergunta “como estou?” sem conversar com ninguém antes pra decidir e essa resposta puramente cerebral é muito mais distante da realidade imediata do que quando respondemos "com a barriga". Talvez algo terrível tenha acontecido (um atraso, uma reunião chata, um engarrafamento, terremoto ou ataque terrorista) e minha mente lembra disso. A partir da memória, ela me conta uma história que diz “estou mal”. Quase sempre, quando sentimos que tudo vai mal, a fonte dessas informações é a nossa cabeça e não a nossa barriga. Acontece que, quando estamos realmente mal, nossa barriga é a primeira a saber (muitas vezes antes que nossa cabeça consiga perceber).

 Uma fonte confiável de informações

Uma fonte confiável de informações

Os esquimós têm 50 palavras para neve e eu não tenho nenhuma pra esta sensação

É claro que “bem” e “mal” são categorias muito vagas nas quais a gente encaixa sentimentos muito mais complexos, por isso o processo de investigação visceral passa pela descoberta de um novo tipo de linguagem. Para começar, é útil fazer um exercício de especificidade. Substituímos “bem” e “mal” por palavras mais precisas: aperto, frio, vazio, agitação. Com o tempo, as sensações e o próprio corpo vão descobrindo sua linguagem. Algumas pessoas usam palavras alusivas e quase poéticas, outras usam termos simples, quase técnicos. Quando nenhuma palavra parece boa, podemos inventar uma palavra nova, só para reconhecer a sensação depois (ex: ... cinco minutos antes do cliente chegar me deu um djúbi-djúbi no peito). Pelo simples ato de prestar atenção ao que você está sentindo, você já está em um processo criativo: o limite são suas sensações.

À medida que a conexão visceral fica mais afinada, a história que a gente conta pra si sobre “como estamos” vai ficando mais colorida e complexa. A gente se aproxima muito mais da objetividade e sente as mudanças mais rapidamente. Essa via de comunicação direta com o âmago do nosso ser garante que vamos saber rapidamente se algo ficar realmente mal. Mas na maior parte do tempo, o que sentimos visceralmente cai no espectro do “tudo bem". 

Sentimentos inventados pesam mais que sentimentos sentidos

A partir dessa conexão com a barriga-que-tudo-sabe, o próximo passo é se conectar com o chão. Plantado firmemente no chão, o corpo se conecta com a terra e a partir dessa conexão podemos acessar o éter, que contém absolutamente tudo, tanto em matéria de dor quanto de delícia. A ideia de estar conectada a tudo o que existe pode parecer cansativa para algumas pessoas, mas na verdade é justamente o contrário. Deixar que as sensações e energias passem por nós é infinitamente menos cansativo do que a alternativa: acreditar em uma única história (inventada na mente) sobre como estamos nos sentindo e cumprir a profecia que nossa mente decretou ("estou bem" ou "estou mal")  a partir de um amontoado de situações externas que não podemos controlar.

Por exemplo, digamos que eu esperei de pé um tempão na fila do banco e fui mal atendida. É totalmente justificado eu achar isso ruim e provavelmente, no momento, vou sentir meu corpo atravessado por sensações de frustração. Se eu permitir que essa sensação física siga seu curso, ela dificilmente dura mais que cinco minutos. Mas se eu estiver presa dentro da minha cabeça, minha mente é capaz de passar dias, semanas e até meses reproduzindo a narrativa da experiência, "travando" no corpo a sensação de frustração. Dias depois, aquela experiência no banco ainda pode estar associada a uma sensação de mal estar, por exemplo. Acessar nosso estado através do corpo é revolucionário porque é um jeito de acessar a esfera do mágico através do concreto, experimentar o sagrado através do mundano, a ordem através do caos. Acessar a experiência através do corpo é um jeito acessível de organizar a bagunça do mundo. Você só precisa deixar seu corpo decidir como você está se sentindo e de uma hora pra outra não importa tanto assim o que está acontecendo. O que importa é a conexão.

 Tudo bem chorar aqui

Tudo bem chorar aqui

A tentação de bater a porta na cara das emoções

Como quase todo mundo, eu sempre fui muito apegada aos meus sistemas de proteção, Se eu começava a sentir alguma coisa vagamente não-boa, eu rapidamente me fechava. Era como bater a porta na cara de alguém da família. Atrás da porta eu me isolava e fingia que estava "tudo bem". O mais difícil sempre foi lidar com o choro, justamente pela dificuldade de disfarçar. Eu me via chorando e me achava uma ridícula. Mesmo sem querer, eu tinha comprado a ideia de que sensibilidade era fraqueza e acreditava que tinha que “controlar minhas emoções” (ao invés de simplesmente deixar elas seguirem seu curso). 

Como a maioria das transformações, a minha aconteceu ao longo do tempo, quase imperceptivelmente. O exercício principal foi prestar atenção aos momentos em que eu fechava e fazer um esforço pra me aberta/conectada. Em muitos momentos não consegui, mas a prática de reconhecer a sensação foi ficando mais natural e, ao longo do tempo, o meu "estar bem” mudou. Sem eu saber, esse processo estava começando quando eu descobri as vísceras como processadoras de dados e confiei na experimentação, mas só semana passada a mudança ficou óbvia.

Foi durante um momento de sensibilidade aguçada, eu estava em um ambiente estranho sem a possibilidade de ir embora e algo novo aconteceu. Por baixo da fragilidade, brotou uma grande alegria de perceber que o meu instinto primordial mudou. Ao invés de recorrer à máscara de perfeição e me fechar para tapar o sol com a peneira, percebi que o meu novo “estar bem” permite que eu sinta coisas difíceis sem precisar alterar minha narrativa para “oh, não, agora estou mal”. E foi assim que, às três da manhã, senti a chegada de um pranto sentido, dolorido, por causa de uma saudade e, deitada no chão, abracei o cachorro e deixei as lágrimas escorrerem e, acreditem, eu estava bem. 

Um jeito diferente de estar bem

O novo "estar bem" passou a ser estar conectada, viva, observando as mudanças a cada instante, com a ajuda da minha mente, da minha barriga e de tudo mais que me atravessa. Encho os olhos d’água enquanto converso com um amigo no parque e logo estamos rindo outra vez: estou bem. Trabalho até tarde, acordo cedo no outro dia e me sinto cansada: estou bem.  Passo uma tarde inteira assistindo seriados na cama, no meio da semana: estou bem. Sinto o que tiver que sentir e sei que estou bem.

Já não faz muita diferença o que alguém de fora possa achar ao ver uma mulher abraçada em um cachorro, chorando: a consciência visceral garante à minha mente que estou absolutamente lúcida. A sensibilidade que eu passei tantos anos encarando como fraqueza se tornou uma fonte de poder, e minha barriga me ajuda a não esquecer disso. Me sinto livre porque não preciso mais ter medo de sentir coisas não-boas, porque estou bem. Pra alguém que passou os primeiros 30 anos da sua vida com medo de ficar louca e entrar para as estatísticas familiares, sentir no corpo essa mudança é um acontecimento imenso, digno de celebração. A sensação na minha barriga é de alívio, de ar fresco, de maciez gostosa:  derrotei o chefão e está tudo bem, de verdade. 

* O termo "consciência visceral" foi incorporado a partir do livro Dance e recrie o mundo, da Dra. Lucy Penna. 

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