Consciência visceral é a ideia de que a experiência através do corpo, em sua forma não narrativa, pela sensação pura, é uma das chaves mais poderosas pra abrir os baús onde a gente guarda aqueles bloqueios assustadores, os "chefões da fase" que a gente precisa derrotar pra conseguir avançar na nossa jornada. Sabe aquela coisa de pensar demais em um problema e acabar criando outro? Dentro da mente, é fácil distorcer a realidade e criar monstros imaginários. A barriga, por outro lado, é uma ferramenta de precisão sofisticada. Algumas pessoas chamam isso de sexto sentido. Eu gosto de chamar de consciência visceral*.

Só um minutinho, deixa eu perguntar pra minha barriga

Eu comecei a descobrir o caminho visceral mais conscientemente há uns dez anos, quando o bambolê entrou na minha vida. Quando comecei a dar aulas, eu não tinha interesse ou preparo para ensinar truques de circo ou dar aula de fitness, então minha abordagem era focada em dança e meditação pelo movimento. No começo de cada aula, fazíamos uma investigação visceral. A gente levava as mãos e a atenção para a barriga e se perguntava, silenciosamente: Como estou? O que estou sentindo? 

No começo isso foi bem estranho para as alunas (e até pra mim, um pouco), mas a ideia era repensar o mecanismo que a gente usa pra responder a pergunta "como você está?". A maioria das pessoas acha que as coisas que acontecem determinam como a gente se sente, mas a verdade é que as coisas ruins que aconteceram são uma memória. Elas não estão acontecendo agora. Na minha experiência, o jeito como eu me sinto é muito mais determinante pro meu bem estar do que o que acontece de fora pra dentro. Outra crença comum e perigosa é a de que estar bem é não sentir coisas ruins. O raciocínio que leva a essa falácia é razoavelmente simples: Ora, se você sente algo que não é bom, então você “não está bem”. E se você não está bem deve haver algo errado com você que precisa ser consertado pra você poder ficar bem de novo. 

Com o passar do tempo, se a gente não dá ouvidos a essas informações que as vísceras oferecem, vamos nos desconectando delas e entrando em um modo automático. A gente deixa a boca (a mente) responder à pergunta “como estou?” sem conversar com ninguém antes pra decidir e essa resposta puramente cerebral é muito mais distante da realidade imediata do que quando respondemos "com a barriga". Talvez algo terrível tenha acontecido (um atraso, uma reunião chata, um engarrafamento, terremoto ou ataque terrorista) e minha mente lembra disso. A partir da memória, ela me conta uma história que diz “estou mal”. Quase sempre, quando sentimos que tudo vai mal, a fonte dessas informações é a nossa cabeça e não a nossa barriga. Acontece que, quando estamos realmente mal, nossa barriga é a primeira a saber (muitas vezes antes que nossa cabeça consiga perceber).

 Uma fonte confiável de informações

Uma fonte confiável de informações

Os esquimós têm 50 palavras para neve e eu não tenho nenhuma pra esta sensação

É claro que “bem” e “mal” são categorias muito vagas nas quais a gente encaixa sentimentos muito mais complexos, por isso o processo de investigação visceral passa pela descoberta de um novo tipo de linguagem. Para começar, é útil fazer um exercício de especificidade. Substituímos “bem” e “mal” por palavras mais precisas: aperto, frio, vazio, agitação. Com o tempo, as sensações e o próprio corpo vão descobrindo sua linguagem. Algumas pessoas usam palavras alusivas e quase poéticas, outras usam termos simples, quase técnicos. Quando nenhuma palavra parece boa, podemos inventar uma palavra nova, só para reconhecer a sensação depois (ex: ... cinco minutos antes do cliente chegar me deu um djúbi-djúbi no peito). Pelo simples ato de prestar atenção ao que você está sentindo, você já está em um processo criativo: o limite são suas sensações.

À medida que a conexão visceral fica mais afinada, a história que a gente conta pra si sobre “como estamos” vai ficando mais colorida e complexa. A gente se aproxima muito mais da objetividade e sente as mudanças mais rapidamente. Essa via de comunicação direta com o âmago do nosso ser garante que vamos saber rapidamente se algo ficar realmente mal. Mas na maior parte do tempo, o que sentimos visceralmente cai no espectro do “tudo bem". 

Sentimentos inventados pesam mais que sentimentos sentidos

A partir dessa conexão com a barriga-que-tudo-sabe, o próximo passo é se conectar com o chão. Plantado firmemente no chão, o corpo se conecta com a terra e a partir dessa conexão podemos acessar o éter, que contém absolutamente tudo, tanto em matéria de dor quanto de delícia. A ideia de estar conectada a tudo o que existe pode parecer cansativa para algumas pessoas, mas na verdade é justamente o contrário. Deixar que as sensações e energias passem por nós é infinitamente menos cansativo do que a alternativa: acreditar em uma única história (inventada na mente) sobre como estamos nos sentindo e cumprir a profecia que nossa mente decretou ("estou bem" ou "estou mal")  a partir de um amontoado de situações externas que não podemos controlar.

Por exemplo, digamos que eu esperei de pé um tempão na fila do banco e fui mal atendida. É totalmente justificado eu achar isso ruim e provavelmente, no momento, vou sentir meu corpo atravessado por sensações de frustração. Se eu permitir que essa sensação física siga seu curso, ela dificilmente dura mais que cinco minutos. Mas se eu estiver presa dentro da minha cabeça, minha mente é capaz de passar dias, semanas e até meses reproduzindo a narrativa da experiência, "travando" no corpo a sensação de frustração. Dias depois, aquela experiência no banco ainda pode estar associada a uma sensação de mal estar, por exemplo. Acessar nosso estado através do corpo é revolucionário porque é um jeito de acessar a esfera do mágico através do concreto, experimentar o sagrado através do mundano, a ordem através do caos. Acessar a experiência através do corpo é um jeito acessível de organizar a bagunça do mundo. Você só precisa deixar seu corpo decidir como você está se sentindo e de uma hora pra outra não importa tanto assim o que está acontecendo. O que importa é a conexão.

 Tudo bem chorar aqui

Tudo bem chorar aqui

A tentação de bater a porta na cara das emoções

Como quase todo mundo, eu sempre fui muito apegada aos meus sistemas de proteção, Se eu começava a sentir alguma coisa vagamente não-boa, eu rapidamente me fechava. Era como bater a porta na cara de alguém da família. Atrás da porta eu me isolava e fingia que estava "tudo bem". O mais difícil sempre foi lidar com o choro, justamente pela dificuldade de disfarçar. Eu me via chorando e me achava uma ridícula. Mesmo sem querer, eu tinha comprado a ideia de que sensibilidade era fraqueza e acreditava que tinha que “controlar minhas emoções” (ao invés de simplesmente deixar elas seguirem seu curso). 

Como a maioria das transformações, a minha aconteceu ao longo do tempo, quase imperceptivelmente. O exercício principal foi prestar atenção aos momentos em que eu fechava e fazer um esforço pra me aberta/conectada. Em muitos momentos não consegui, mas a prática de reconhecer a sensação foi ficando mais natural e, ao longo do tempo, o meu "estar bem” mudou. Sem eu saber, esse processo estava começando quando eu descobri as vísceras como processadoras de dados e confiei na experimentação, mas só semana passada a mudança ficou óbvia.

Foi durante um momento de sensibilidade aguçada, eu estava em um ambiente estranho sem a possibilidade de ir embora e algo novo aconteceu. Por baixo da fragilidade, brotou uma grande alegria de perceber que o meu instinto primordial mudou. Ao invés de recorrer à máscara de perfeição e me fechar para tapar o sol com a peneira, percebi que o meu novo “estar bem” permite que eu sinta coisas difíceis sem precisar alterar minha narrativa para “oh, não, agora estou mal”. E foi assim que, às três da manhã, senti a chegada de um pranto sentido, dolorido, por causa de uma saudade e, deitada no chão, abracei o cachorro e deixei as lágrimas escorrerem e, acreditem, eu estava bem. 

Um jeito diferente de estar bem

O novo "estar bem" passou a ser estar conectada, viva, observando as mudanças a cada instante, com a ajuda da minha mente, da minha barriga e de tudo mais que me atravessa. Encho os olhos d’água enquanto converso com um amigo no parque e logo estamos rindo outra vez: estou bem. Trabalho até tarde, acordo cedo no outro dia e me sinto cansada: estou bem.  Passo uma tarde inteira assistindo seriados na cama, no meio da semana: estou bem. Sinto o que tiver que sentir e sei que estou bem.

Já não faz muita diferença o que alguém de fora possa achar ao ver uma mulher abraçada em um cachorro, chorando: a consciência visceral garante à minha mente que estou absolutamente lúcida. A sensibilidade que eu passei tantos anos encarando como fraqueza se tornou uma fonte de poder, e minha barriga me ajuda a não esquecer disso. Me sinto livre porque não preciso mais ter medo de sentir coisas não-boas, porque estou bem. Pra alguém que passou os primeiros 30 anos da sua vida com medo de ficar louca e entrar para as estatísticas familiares, sentir no corpo essa mudança é um acontecimento imenso, digno de celebração. A sensação na minha barriga é de alívio, de ar fresco, de maciez gostosa:  derrotei o chefão e está tudo bem, de verdade. 

* O termo "consciência visceral" foi incorporado a partir do livro Dance e recrie o mundo, da Dra. Lucy Penna. 

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