Em praticamente todas as culturas antigas, a lua é vista como uma entidade feminina. Além de reger as marés, ela também influencia as águas dentro de nós (e com elas, as poderosas flutuações hormonais que regulam muitos de nossos poderes ao longo do ciclo). 

A lua como símbolo também está relacionada ao que não conseguimos prever, à loucura, àquilo que está oculto. A própria essência do feminino (ou receptivo) sempre esteve associada à noite, aos segredos e às leis ocultas da natureza, o que inspirou temor e respeito ao longo da história.  

A melhor maneira de ilustrar essa relação entre as mulheres e a lua é a simetria quase perfeita entre o ciclo menstrual e o ciclo lunar. Em 28 dias, um ciclo completo de expansão e retração desenha no céu uma história de eterno nascimento, morte e renascimento. Antes mesmo da invenção do tempo, cada mulher já trazia dentro de si um calendário. 

 (foto: Jake Hills)

(foto: Jake Hills)

Máquinas de executar tarefas 

Assim como a natureza, a mulher tem ritmos que historicamente vêm sendo atropelados em nome dos caprichos e da ganância dos poderosos. Vivemos uma era dominada por corporações multinacionais maiores que países, na qual o respeito ao ciclo natural de expansão e retração deu lugar a um extrativismo violento e inescrupuloso. 

Em uma cultura de produtividade mecânica, toda mudança é perigosa. Dizer que alguém é "de lua" é uma forma de desqualificar essa pessoa. Da mesma forma, o período menstrual é culturalmente associado a instabilidade emocional ("ih, deve estar naqueles dias") e a reações supostamente exageradas (um dia eu vou escrever um texto sobre TPM pra dizer umas verdades, mas hoje não é esse dia). 

A partir da revolução industrial, quando pessoas e máquinas começaram a ser comparadas, essa lua interior vêm se tornando cada vez mais secreta, até mesmo para nós mesmas.  Pudera: há séculos reivindicamos direitos iguais e no entanto ainda ganhamos menos do que os homens. Não é de espantar que não conversemos abertamente sobre a importância de honrar as necessidades do nosso corpo em cada etapa do ciclo, se ainda vivemos em um clima cultural que pode usar esses conhecimentos contra nós.

 Aquela sensação de estar morrendo lentamente... (foto: Pinterest)

Aquela sensação de estar morrendo lentamente... (foto: Pinterest)

Sangue, suor e lágrimas

Como boa parte das mulheres da minha geração, fui educada para ser independente. Sempre foi muito importante pra mim fazer algo em que eu acreditava então destaquei desde cedo nos ambientes de trabalho. Minha paixão era cumprir minha missão com brilhantismo e atender às necessidades dos clientes. Eu era aquela que ficava até mais tarde, que trabalhava nos fins de semana, nas madrugadas. Eu era capaz de fazer o que precisasse para garantir o resultado. Boa parte das mulheres sabe que a recompensa por esses “sacrifícios” que fazemos de bom grado é a expectativa de que sempre estaremos dispostas a fazê-los.

Então, quando eu tinha cólicas ou sintomas naturais do período menstrual, rejeitava essas experiência com fúria. Eu intuía as regras do mundo à minha volta e achava que melhor seria não precisar passar por aquele “martírio”. O corpo que parecia estar contra mim, me forçando a parar quando o que eu queria era continuar, não era o meu corpo. O meu corpo, se fosse meu mesmo, deveria se curvar à vontade da minha mente, ora essa. Embora eu não viva mais assim há algum tempo, ainda lembro bem dessa época e da clara sensação de que meu corpo era meu inimigo. 

 (foto:  Rupi Kaur )

(foto: Rupi Kaur)

Dá pra sangrar sem dor

Meu primeiro grande insight sobre o ciclo menstrual veio quando comecei a prestar atenção. Ainda firmemente revoltada contra a menstruação e contra o próprio fato de ter nascido mulher, eu me dei conta que a dor não era algo natural. 

A revelação foi a seguinte: embora o aumento da sensibilidade seja a experiência padrão da menstruação, a dor aguda dependia de outros fatoras. Observei que quando o ciclo anterior tinha sido tranquilo e eu tinha me mantido presente, não sentia dor alguma. Por outro lado, nos meses em que eu me “matava trabalhando”, quando eu não tinha escutado minhas necessidades, quando tinha traído o meu bem-estar sistematicamente, aí o período menstrual era marcado por dor e sofrimento. 

Nesses ciclos de atropelamento das necessidades, a menstruação me  incapacitava: eu sentia tanta dor que ficava nauseada. Não conseguia comer direito. Quando ligava pra cancelar algum compromisso, aproveitava e dizia que estava mal do estômago (por vergonha de "admitir a fraqueza" e mencionar o período menstrual). Mas se a menstruação não era naturalmente dolorosa, ficava claro que tinha algo muito errado, realmente. Sentir tanta dor não podia mais ser encarado como algo normal. Algo tinha que mudar.

 (Arte: Naomi Wilkinson)

(Arte: Naomi Wilkinson)

A sincronicidade amplifica tudo

Anos se passaram entre eu começar a prestar atenção no meu ciclo e finalmente experimentar pela primeira vez a sincronia total com a lua. Nesse padrão menstrual, que vim a chamar de “ciclo da deusa”, a mulher menstrua na lua nova e ovula na lua cheia. Todos os marcadores de fertilidade e receptividade ficam amplificados. É sublime em termos de relação com a natureza e magnetismo pessoal. Incidentalmente, sempre que eu experimentei esse padrão menstrual foi em momentos de conexão frequente com a natureza (pé na terra, banho de rio, essas coisas). 

Fui tomada por uma euforia maravilhosa. Eu olhava para a lua no céu e ela me dizia algo sobre mim. Como se tudo na terra e no céu me refletisse. Mas não era um delírio de megalomania e sim uma sensação de fusão, de total comunhão com a natureza. 

Mas quando eu entrei em uma fase de trabalho mais intenso, que restringiu meu tempo de contato com a natureza e demandou mais assertividade, meu ciclo naturalmente mudou. Depois de ter experimentado a amplificação de todos os processos, eu olhava para o céu e via outra lua, uma lua que não falava de mim. Senti como se tivesse perdido algo que eu havia lutado anos para conquistar. Sem a lua pra amplificar todos os meus processos, eu era apenas uma mulher comum, sem super-poderes. (Sim, superpoderes. Até ovular na lua cheia, eu não sabia o que era magnetismo pessoal.) 

 (foto: Pinterest)

(foto: Pinterest)

O ciclo faz o ritmo, o ritmo faz o ciclo

Há indícios de que, antes da invenção da luz elétrica (que nos permite seguir nas tarefas diurnas depois que o sol já caiu), todas as mulheres do mundo menstruavam na lua nova e ovulavam na lua cheia. Esse padrão menstrual, além de demonstrar um nível alto de harmonia com os ciclos naturais, está associado à fertilidade. Ele é o "ciclo ideal" para acasalar e fazer bebês mas também o melhor ciclo para criar a partir da própria verdade, em harmonia com o que está à minha volta. 

Acontece que antes de inventarem a luz elétrica, as mulheres não tinham as mesmas demandas individuais que temos hoje. Há ambientes tão carregados de masculinidade tóxica que seria prejudicial para meu trabalho (e bem estar) eu exercer a receptividade e a fluidez no nível em que o "ciclo da deusa" permite. Quando qualquer processo é amplificado, é importante poder selecionar os processos que estão na pauta. E isso ainda é um privilégio. 

Ironicamente, embora a sincronia plena seja uma experiência linda, o momento em que eu realmente entendi que meu corpo nunca esteve contra mim foi no padrão menstrual inverso (sangramento na lua cheia e ovulação na lua nova), que vim a chamar de "ciclo da guerreira". Foi quando eu percebi que o meu ciclo tinha mudado porque era exatamente aquilo que o ambiente ao meu redor estava exigindo. Foi ali que eu me dei conta que não existia um certo e errado. Foi ali que eu vislumbrei pela primeira vez, a terceira lua. 

 (arte: Los Tomatos)

(arte: Los Tomatos)

Da dança de duas nasce a terceira lua

Um jeito de visualizar a relação entre a lua externa (no céu) e a lua interna (o padrão menstrual de cada mulher) é visualizar dois discos sobrepostos que giram no mesmo sentido. O maior deles se move sempre em um ritmo constante e o menor, por ser mais leve, é mais afetado pelo ambiente, sua velocidade pode variar. O disco grande é a lua no céu, que afeta não só a mim mas a tudo o que há na Terra. O disco menor é a minha lua pessoal, que é um dado de energia disponível ao longo do ciclo. 

Na relação entre esses dois ritmos surge uma terceira lua, que descreve a interface, o contato, entre o momento energético que me afeta de fora pra dentro e o momento energético que me afeta de dentro pra fora. A terceira lua está oculta. Para ouvir suas mensagens, é preciso fazer silêncio e confiar na sabedoria dos ciclos. Nem sempre uma mensagem se revela em um único ciclo. Nesse sentido, a terceira lua se assemelha aos ciclos mais longos, como as estações do ano. Olhe para os três últimos ciclos e veja que histórias eles contam. 

Ao contrário do que pode parecer para alguém que olha dentro do paradigma patriarcal, a lua é um indicador. Observar e monitorar essas três luas (a interna, a externa e a relação entre as duas) é uma decisão estratégica para o meu negócio. Eu trabalho melhor se levo em consideração o resultado que quero produzir. Se eu entendo os ciclos, não preciso fingir que estou ocupada nos momentos de introspecção. Quando eu intencionalmente distribuo minhas atividades no calendário de acordo com o meu padrão menstrual,  consigo prever melhor minhas próprias necessidades e reservar espaço e tempo para demandas sutis, ao invés de assumir mais coisas do que consigo dar conta. 

Navegação sutil

A terceira lua só se revela quando nos recusamos a escolher entre as demandas externas e as demandas internas. Ela é uma ferramenta de precisão, reservada àquelas que estão prontas para navegar a rigidez da realidade sem abrir mão da própria maciez. 

O ciclo menstrual é um sistema de mensagens viscerais altamente inteligente, que responde às especificidades do meio. Nosso ciclo não tem como mandar um email enumerando as coisas das quais estamos precisando, por isso cabe a cada mulher aprender essa linguagem visceral. Se você estiver precisando de descanso, o corpo vai  apresentar sinais dessa necessidade. Em um primeiro momento, serão  sinais são sutis, e então se tornarão menos sutis. Se dor devastadora for o único jeito de você parar e ouvir, é função do teu ciclo assumir a função de te "garantir" o acesso a esse descanso de que tu precisa. 

A terceira lua traz mensagens sobre o momento que estamos vivendo. Ela mostra do que estamos precisando (e às vezes ainda não percebemos) e o que podemos oferecer. Por exemplo, se você estiver navegando um momento hostil e precisar de uma casca um pouco mais grossa pra te proteger, a terceira lua trata de desacelerar ou acelerar o ritmo para garantir teu acesso a essa densidade maior. 

 (foto: Pinterest)

(foto: Pinterest)

Luas que se encontram

Sabemos que, quando estão em grupos, as mulheres tendem a menstruar mais ou menos ao mesmo tempo. Essa é mais uma evidência da relação entre o nosso ciclo menstrual e o ambiente ao nosso redor. A tendência é que a mulher que tem a conexão mais forte com a lua sirva de canal para a conexão das outras. Essa mulher que magneticamente estabelece o ritmo do grupo não exerce domínio sobre as outras, ela simplesmente serve de ponte para as mulheres menos conectadas aos ritmos da natureza (o ciclo da lua). 

O processo de transformação que a terceira lua permite não é consciente, ele acontece a partir de um outro tipo de entendimento, em negociações sutis que ocupam espaços que não vemos mas que influenciam nossa experiência. É possível acolher ou rejeitar uma conexão mas não é possível fazer uma escolha racional (quero menstruar no dia 7 pra não interferir na data dessa maratona). O único caminho é confiar no ciclo. 

Eu gosto de pensar sobre a posição dessa mulher através da qual as outras fortalecem sua conexão. Em alguns grupos eu já exerci esse papel, em muitos outros já fui uma das que se beneficiou dela. Não dá pra negar que fazer essa conexão é uma posição de poder. Mas não é poder SOBRE as outras, e sim o poder de canalizar, inspirar, servir de ponte. Penso que essa é uma característica essencial do poder feminino: o aspecto feminino do poder (ou yin, se preferirem) nunca é coercitivo. Ele é receptivo e preenche os espaços que não enxergamos. Esse tipo de poder muda a forma como vivemos sem pedir licença, sempre pra melhor (mesmo quando relutarmos em admitir) e a única coisa que ele exige em troca é a que nos mantenhamos abertas para a conexão. 

 (foto:  Mandala Lunar )

Ferramentas úteis

Se você não entendeu muito bem mas está interessada, quero terminar dando algumas dicas práticas. Observar a troca entre as energias externas e internas é um processo de autoconhecimento que vale muito a pena, mas que acontece ao longo do tempo. E o jeito mais eficiente de aprender coisas ao longo do tempo é monitorando elas. Se você ainda não começou a prestar atenção nos seus ciclos, eu te convido para começar monitorando apenas a data da sua menstruação. Pra isso, você pode escolher um aplicativo para celular, uma agenda ou um método que você mesmo sinta que é agradável. 

Se você já monitora sua menstruação, te convido para começar a prestar atenção nas fases da lua e começar a planejar eventos importantes na sua vida levando em consideração a energia mais favorável para eles. Eu uso esse método para todas as datas importantes sobre as quais tenho controle. À medida que você aprende a se comunicar com essa energia lunar que afeta todas as coisas vivas no planeta, seus projetos vão fluir de maneira mais orgânica. Você vai naturalmente percebendo porque certas coisas foram mais difíceis em um momento e depois fluíram melhor em outro. 

Se você já faz as duas coisas, te convido para começar a olhar para seus últimos três ciclos e começar a identificar nas mensagens da terceira lua  e história que essa dança entre as luas está contando. Que tipo de vida você anda levando? Como o contato entre as energias lunares de fora e de dentro deram suporte ao teu crescimento? 

Pra te ajudar nesse processo, deixo aqui uma lista de ferramentas que eu uso e gosto (ninguém me paga nada pra recomendar):

Pra monitorar as fases da lua:

  • Olhar para o céu à noite (o app mais antigo da categoria) 
  • Phases of the moon (Android / iOS): aplicativo bem educativo, simples, elegante e grátis.

Para monitorar o ciclo menstrual:

  • Clue - Calendário Menstrual (Android / iOS): Este app simples e bonito tem a grande vantagem de ser em português. É grátis. 

Para monitorar a terceira lua:

  • The Flow (Android / iOS): aplicativo da autora Miranda Gray com dicas para aproveitar melhor os super-poderes de cada fase. Mostra as fases da lua também. Bonito, cheio de conteúdo e grátis. 
  • Mandala lunar: ideal pra quem não morre de amores pelas ferramentas tecnológicas, a Mandala Lunar é um recipiente lindo que reinventa a agenda em um formato sensível que honra todos os ciclos da mulher e da natureza. 

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