Em meio a imagens de Nossa Senhora e promoções de loja, o dia das mães pode ser um momento desafiador pra quem não tem lá a melhor das relações com a sua progenitora. A julgar pelo clima cultural, seria de se esperar que todas as mães fossem maravilhosas e magicamente dotadas de superpoderes afetivos. Isso faz com que pessoas como eu e você, filhas de mãe negativa, acabemos nos sentindo aprisionadas em uma realidade paralela onde todas as mães do mundo são maravilhosas menos a nossa. 

Por isso, nesta data totalmente comercial que celebra a mulher que deveria ter te amado e te protegido mas acabou te deixando com medo de confiar em qualquer pessoa, preparei especialmente pra gente que é filha de Medeia a singela coleção de cartões que ilustram este texto. Partiu se libertar dessa prisão que é esperar amor de alguém que não tem amor pra dar!

Maternidade e amorosidade nem sempre andam juntas

Não importa qual é o seu trauma: se você foi espancada por uma mãe bêbada ou se teve sua autoestima sistematicamente erodida pelas críticas destrutivas da mamãe. Neste dia das mães, eu quero te deixar de presente uma única lição:

O maior retrato da relação de uma mulher consigo mesma é a maneira como ela se relaciona com a própria filha.

Ou seja, uma filha é um espelho para sua mãe. Quando eu, já adulta, consegui entender essa lição, tudo mudou tudo na minha relação com minha mãe negativa (ela mesma vítima de abuso e negligência na infância e sobrevivente de uma vida marcada pelo abuso de drogas e pela doença mental não tratada). Ficou claro que nada que eu fizesse seria capaz de mudar a forma como ela mãe me tratava e isso me deixou livre pra tomar decisões como adulta e nutrir a minha própria mãe interior (que morre de orgulho quando eu faço alguma coisa legal).

Um outro mundo é possível

Pra me separar da mãe negativa, não bastou eu entender o processo, precisei ativamente me controlar pra sair do papel de filha que não recebe o suficiente, que espera o amor da mãezinha. Isso passou por reconhecer que minha mãe não era capaz de me enxergar, não porque eu fosse insignificante, mas porque não tinha espaço na relação pra alguém além dela. E a partir de "não ter mãe", se criou um vazio. Foi nesse vazio que eu construí minha mãe de verdade. 

A genial Bethany Webster, uma mentora e coach que ajuda mulheres a curarem a "ferida da mãe", descreve essa jornada de cura em sete etapas:

  1. Primeiro, é preciso reconhecer como a nossa mãe é a base para tudo o que achamos de nós mesmas. Ou seja, se a minha mãe me dizia que eu era preguiçosa, eu vou crescer acreditando que sou preguiçosa, por exemplo. 
  2. Depois, é preciso reconhecer na cultura (o mundo "lá fora") as fontes dessa ferida. Reconhecer que a minha mãe também caiu nas armadilhas do "senso comum" e como ela também é produto de um ciclo destrutivo que corre gerações. A partir disso, eu me comprometo a romper com o ciclo
  3. Neste momento, o processo de luto começa. Eu reconheço tudo o que eu não tive, todas as minhas carências, e consolo a criança machucada dentro de mim. Eu reconheço as formas em que eu compensei essas carências para me proteger e enfrento esses sentimentos.
  4. Agora que eu sei o que me faltou, é hora de tirar a criança machucada do comando e assumir a perspectiva adulta. Nessa etapa, é preciso matar a ilusão e reconhecer que a mãezinha boazinha não existe, que ela nunca vai existir: que minha mãe nunca vai me dar o que ela não me deu.
  5. A dor é real. A dor de não ter mãe pode parecer insuportável, mas ela fica pior quando a gente não se permite sentí-la. Este é o momento de luto, de sentir totalmente a dor pela morte da mãe falsa.
  6. Depois de "enterrar" simbolicamente a mãe negativa, você pode desconectar sua mãe interior dela. Todo o apego e amor que você sentia pela mãe que não tinha amor pra dar pode ser transferido para a sua mãe interior amorosa: uma parte de você mesma que faz o papel de tudo o que você não recebeu de sua mãe negativa. Essa mãe é a sua versão adulta, ela é a mulher que você realmente pode ser. 
  7. Depois dessa cura, você pode reimaginar toda a sua vida, livre dos bloqueios que eram criados pela sombra da mãe negativa. O que é possível para você agora que você tem uma mãe positiva?

Trocando em miúdos, o único jeito de superar o horror de uma mãe negativa é virar sua própria mãe, uma mãe totalmente diferente da mãe negativa, uma mãe amorosa e responsável, que nunca vai te abandonar. Não se trata de botar a culpa na mãe ruim, mas sim de assumir o controle pela própria narrativa. É um processo que exige tempo e energia, porque a nossa criança carente está sempre pronta pra abrir o berreiro. Mas o que eu quero dizer é que é possível. E vale a pena descobrir que aquilo que você esperou a vida inteira para receber de outra pessoa estava dentro de você. 

Feliz dia das mães pra você, que é sua própria mãe. Você é a melhor mãe do mundo. Sua linda. <3

Abaixo, a coleção completa de cartões, inspirada por esta postagem aqui

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